Clique aqui
 

Olá, ! Em 1792, quando Beethoven partiu definitivamente para Viena, o conde Waldstein escreveu algo que se tornaria conhecido como a "profecia de Waldstein". Hoje ela está nos arquivos da Beethoven-Haus, em Bonn, Alemanha. Saiba mais aqui. Caso tenha alguma dúvida ou queira enviar um comentário use o formulário ao final do artigo. Seja sempre bem-vindo(a). Obs: © Caso queira reproduzir este artigo ou parte dele, citá-lo ou usá-lo para qualquer outro fim, favor entrar em contato com o autor pelo e-mail falecom@mrmenezes.com.br )


A profecia de Waldstein

(Artigo de M. R. Menezes © 2007)

A ligação espiritual de Beethoven com Mozart se mostra presente desde a tenra infância do compositor. Qualquer pequeno virtuose que aparecia era logo considerado candidato a um “novo Mozart”. Tal foi o caso de Beethoven. Porém, a biografia de Beethoven e a do mestre de Salzburg em nada podem ser comparáveis. Mozart teve o que de melhor se pode esperar em vista da formação de um talento musical. Seu ambiente doméstico era de harmonia e o compositor teve na figura paterna um professor dedicado e amoroso, um exemplo e modelo. Mozart despertou muito cedo para o lado espiritual e esotérico da música e já na adolescência planejava inserir “códigos” em suas obras, de forma a que essas pudessem ser apreciados apenas por entendidos.

Porém, a história tem seus caprichos e Mozart falece muito cedo, deixando um vácuo que deveria ser preenchido por alguém. O destino logo colocaria nas mãos de Beethoven essa tarefa. A primeira viagem de Beethoven a Viena, em 1787, para onde ele fora enviado para se entrevistar com Mozart, é lograda pela morte da mãe de Beethoven, obrigando-o a retornar à Bonn. A questão se Beethoven encontrou-se ou não com Mozart em sua primeira estadia em Viena divide os biógrafos.

Os anos seguintes em Bonn seriam terríveis para o compositor, que teria de assumir a tutela dos irmãos diante de um pai totalmente incapacitado pela bebida. Em 1792, Beethoven consegue novamente apoio para retornar a Viena. No álbum autógrafo de sua despedida de Bonn, o conde Waldstein, tradicional mecenas de Bonn e um dos primeiros a reconhecer o talento de Beethoven, escreve o que viria se tornar conhecida como “A Profecia de Waldstein”:

“A divindade tutelar de Mozart está deplorando e carpindo a morte de seu protegido. Ela encontrou refúgio mas não ocupação com o inexaurível Haydn; através dele, ela deseja formar união com um outro. Com ajuda de trabalho assíduo, recebereis o espírito de Mozart das mãos de Haydn” (Conde de Waldstein, Bonn, 1792)


Os direitos para uso comercial desta imagem pertencem ŕ Beethoven-Haus, Bonn

Tal profecia sugere haver uma conexão espiritual entre os dois gênios, algo como uma linhagem oculta. O compositor Richard Wagner (como diversos outros artistas) acreditava em tal linhagem, a ponto de exclamar: “Creio em Mozart e Beethoven, em seus discípulos e apóstolos”. Entretanto, em Beethoven, as forças espirituais teriam de agir de uma maneira muito diferente. Richard Wagner, em seu ensaio “Beethoven” de 1870, acredita que a surdez de Beethoven tenha sido um ardil da natureza para proteger Beethoven da frivolidades de Viena e impedir que ele tivesse um fim prematuro como Mozart. Trata-se de teoria interessante, porém, estando Beethoven isolado do mundo por seu temperamento e surdez, ele também se mantinha isolado no que concerne ao apoio espiritual necessário para um trabalho musical espiritual.

Quem foram os mentores de Beethoven?

O teólogo Karl Amenda e o Dr. Franz Wegeler eram os seus amigos confidentes, aqueles a quem conseguiu confessar-se em momentos de solidão e desespero. Porém, Beethoven não tinha um mentor espiritual como Mozart tivera em seu pai e depois em Ignaz von Born, grande líder maçônico vienense. Católico de nascimento, Beethoven cresceu em um meio intelectual no qual a teologia católica fora praticamente substituída pela moral racional kantiana e pelas concepções iluministas. Porém, como tudo em sua vida, Beethoven parece ter desenvolvido uma síntese bem pessoal dos valores místicos, morais e racionais aos quais teve acesso.

Quando analisamos a formação espiritual de Beethoven, vemos que sua juventude coincide com um período de grande expansão do pensamento iluminista na Alemanha e no Eleitorado de Bonn. Os livreiros da cidade nas décadas de 1870 e 1780 estavam abarrotados de obras de Rousseau e Montesquieu, e da poesia de Klopstock, Herder, Schiller e Goethe. Sob o governo do eleitor Maximilian Franz (irmão do imperador José II), iniciado em 1784, as idéias do Iluminismo passaram a ser praticamente o pensamento oficial do estado.

A biblioteca da corte de Bonn possuía uma dos mais completos acervos de literatura. Em 1785, foi criada uma Universidade na cidade, na qual a filosofia kantiana, a literatura grega e o direito natural era ensinados. Todo esse movimento estava atrelado a uma intensa contraparte mística e esotérica (como de resto em toda a Europa), representada pelas Lojas Maçônicas, nas quais os princípios espirituais da antiguidade eram secretamente ensinados. Beethoven não participa formalmente da confraria, mas sim, dos “amigos da literatura” (Lese-Gesellchaft), grupos de estudos que se reuniam abertamente para estudar as obras dos grandes pensadores.

Beethoven (então com 16 para 17 anos) freqüentava os encontros, mas bem a seu estilo, se recusara a filiar-se a eles. Lá, o jovem Beethoven entraria em contato com Eichoff, Ries, o conde Waldstein, Schneider, vários deles maçons. Vem daí a idéia errônea de que Beethoven tenha sido maçom. De fato, ele jamais pertenceu à Franco-maçonaria, porém, quase todos os seus amigos, tutores e mentores eram maçons.

A influência de seu primeiro professor de música Neefe parece ter sido considerável. Neefe, ao contrário de muitos iluministas, que defendiam a acertiva kantiana de “manter a religião dentro dos limites da simples razão”, defendia uma mescla entre valores religiosos e filosóficos, algo que se tornou característico de Beethoven. Mas a verdade é que Beethoven jamais foi um “grande interessado” por assuntos ocultos. Ele era um jovem de formação simples, ávido por se ligar aos homens bons, de “posição” e honestos. Ele freqüentava assiduamente a “Zehrgarten”, uma taberna com uma livraria anexa, local de encontro dos intelectuais e artistas da cidade, e que tornou-se o local preferido do compositor.

Dotado de espírito muito livre e independente e uma grande aversão a “ser ensinado”, ele certamente jamais seria uma pessoa a adentrar fileiras sectárias, pertencer a confrarias e seguir preceitos de ordens. Em 1789, matriculou-se na Universidade, mas não se sabe quantas aulas freqüentou. Beethoven assimilava de tudo aquilo que estava à sua volta apenas o que lhe parecia útil e mais correto. “Não tenho a menor pretensão ao que é propriamente chamado erudição. Entretanto, me esforço por compreender os propósitos das melhores e mais sábias pessoas de todas as épocas em suas obras.”.

Não sabemos, portanto, quanto do pensamento esotérico da confraria teria sido transmitido ao compositor em seus contatos com seus amigos maçons, porém, era certo que Beethoven possuía conhecimento dos rudimentos dos ensinamentos da confraria. Ao longo de sua vida podemos dizer que Beethoven tenha sido um crente “ecumênico”, interessado pela espiritualidade oriental (especialmente da Índia), egípcia e cristã.

Como resultado de sua formação espiritual, a espiritualidade se manifestaria na música de Beethoven de uma forma intuitiva, espontânea e, muitas vezes, inconsciente. Pode-se imaginar que um “sucessor espiritual” de Mozart deveria ser mais preparado no tocante ao simbolismo presente na música. Porém, tal “missão” jamais foi reivindicada por Beethoven, que, aliás, manifestava reservas acerca de certas escolhas de temas feitas por Mozart (como em “Fígaro” e “Don Giovanni”).

Caso Beethoven tenha realmente “recebido o espírito de Mozart das mãos de Haydn” isso certamente não significa uma presença de Mozart na música de Beethoven (a não ser em sua primeira sinfonia e primeiras sonatas), mas sim, uma “passagem de bastão”, uma transferência adiante da tarefa de fazer a música progredir rumo ao ideal da harmonia, da beleza e do amor universais, o compromisso de que a arte musical fosse algo além de mero entretenimento vazio, que fosse uma ferramenta para a evolução humana.

Visto deste ponto de vista, parece inquestionável que Beethoven honrou o bastão. Beethoven mostrou possuir um senso interior muito preciso sobre o valor espiritual de sua arte. Caso sejam verdadeiras as anotações de Bettina Brentano sobre suas conversas com o compositor, ele estaria muito consciente do papel espiritual de sua arte: “Sim, a música é verdadeiramente a medianeira entre a vida dos sentidos e a vida do espírito.” “A música é a única, a imaterial entrada num mundo mais alto do saber, a rodear o homem, sem que este o possa apreender...” “Quando abro os olhos, suspiro com angústia, pois tudo o que vejo é contra a minha crença e desprezo o mundo que não compreende que a música é uma revelação mais sublime que toda a sabedoria e toda a filosofia! Não tenho amigos, vivo só com os meus pensamentos! Mas sinto que, na minha arte, Deus está mais perto de mim do que dos demais. E posso agir sem temor porque sempre O reconheci e O compreendi. Também nada temo para minha música; Todo aquele que a sentir em toda a sua plenitude estará para todo o sempre liberto das misérias a que tantos estão acorrentados!”. Beethoven, segundo Bettina.

Analisando o poderoso conjunto da obra de Beethoven, creio que a ninguém pareça absurdo que Beethoven possa ser considerado um “sucessor” de Mozart. Musicalmente, enquanto coube a Mozart criar um substrato musical sinfônico para a ópera (até então formado por um conjunto fragmentário e pouco coeso de partes), caberia a Beethoven emancipar o material instrumental sinfônico definitivamente do consórcio obrigatório da palavra, criando uma dimensão dramática dentro da forma-sonata e da Sinfonia. Mozart, na ópera, e Beethoven, na Sinfonia, juntos estabeleceram as duas colunas sobre as quais se sustentaria o edifício da música.

(Artigo de M. R. Menezes © 2007)



 
Comentários:

Nome (iniciais)/ Data: -/-/-
Comentário.