* Trecho do romance "A Gruta - Memórias da Amada Imortal" escrito por M. R. Menezes © 2007
Tudo arrumado, subi para banhar-me e vestir-me. Optei por um vestido de cor carmim, pois queria que o compositor sentisse minha presença feminina, embora não fosse minha intenção ser provocante, atitude que não combinava com meu temperamento.
O que esperava é que tivesse a oportunidade de conversar com ele e externar, sem contratempos, toda minha admiração, afeto e estima. Meu pai espantou-se ao chegar, no final da manhã e ver-me envolta nos preparativos para o almoço. Eu estava tão nervosa que tudo caía de minhas mãos, deixando até mesmo a sempre tranqüila Joséphine assoberbada.
— O que está acontecendo, minha filha?
— Ah, é que temos um convidado para almoçar. Perdão por não havê-lo consultado, mas é que foi tudo tão rápido...
— E quem é o ilustre convidado?
— Ah... O compositor Beethoven.
— Beethoven?! Ora, não sabia que eram amigos.
— Somos apenas conhecidos — disse, sem graça.
— Hoje será um dia muito ocupado para mim, filha, não poderei dar muita atenção ao compositor.
— Tudo bem, cuidarei de tudo!
No horário costumeiro, ao meio-dia, assentamo-nos na sala de estar à espera do compositor.
Quase uma hora depois, ele ainda não havia chegado. Meu pai, a todo o momento, olhava pela janela e, não vendo o compositor, olhava para mim, impaciente, deixando-me constrangida e ainda mais ansiosa.
— Ele virá... Ele virá... — dizia eu, baixinho, quase como uma prece.
Quando o sino da catedral badalou apontando uma hora da tarde, meu pai olhou pela janela e decretou:
— Vamos almoçar!
— Esperemos mais alguns minutos! Por favor! — implorei.
Felizmente, naquele instante, alguém bateu à nossa porta.
— É ele!! — exclamei, aliviada.
— Eu abro a porta! — disse meu pai, com voz brava.
Logo esperei pelo pior, pois para ele era inaceitável
um atraso como aquele. Corri,
então, à sua frente e recebi o compositor.
— Senhor Beethoven! Que bom que atendeu ao nosso convite! Vamos, entre!
Beethoven, postado diante de nosso sobrado, parecia um pouco
constrangido, como se não acreditasse que estivesse ali... Puxei-o para
dentro e, após retirar seu casaco
e cartola, conduzi-o à sala de jantar.
— Senhor Lichtenberg! — cumprimentou Beethoven, respeitosamente.
— Há quanto tempo, meu jovem! É um prazer recebê-lo novamente em nosso sobrado.
— Estou atrasado? — perguntou o compositor.
— Oh não! — apressei-me em responder —
Chegou na hora exata! — disse, olhando
firme para meu pai, pedindo sua aprovação.
Meu pai deu de ombros e, com isso, vi que o assunto estava superado.
— Aceita um licor antes do almoço, senhor Beethoven? — perguntei.
— Não, obrigado senhorita, não atrasemos mais a refeição — respondeu ele.
Assentamo-nos à mesa. Joséphine trouxe as travessas e abriu o vinho. Eu havia usado nosso serviço mais requintado de mesa, o mesmo usado para receber o banqueiro suíço Schwitzen. Meu pai parecia estar com muita fome e pouco falou durante a refeição.
Coube a mim, então, entabular a conversação com o compositor.
— Tem irmãos, senhor Beethoven?
— Irmãos? Oh sim... Caspar Karl e Nikolaus Johann. Mas sou o mais velho.
— Eles ainda residem na Renânia?
— Não... Estão aqui comigo há vários anos. Caspar é funcionário do Departamento de Finanças e Johann é assistente farmacêutico — disse o compositor, como se quisesse causar boa impressão.
— Assistindo à sua Academia, ano passado, pude notar que aprendeu muito com o senhor Haydn — disse meu pai, entrando na conversa.
— Na verdade, estudei com Haydn apenas dois anos, pois
logo ele voltou para a Inglaterra. Recorri, então, a Albrechtsberger84
para algumas aulas de contraponto e foi
só — explicou Beethoven.
— Quais são seus compositores prediletos, senhor Beethoven — perguntei, esperando que ele declarasse diante de meu pai sua admiração por Mozart.
— Acima de todos, para mim, indiscutivelmente está o velho Bach, embora meu predileto seja Haendel — respondeu ele.
Recordando nossa desavença passada, achei prudente nada perguntar sobre Mozart... Quanto aos seus modos à mesa, embora claramente não fossem educados, também não se pode dizer que fossem grosseiros. Eu havia propositadamente restringido o número de talheres e de copos para não o constranger. Podemos dizer que Beethoven portou-se adequadamente durante a refeição, embora tenha bebido um pouco mais do que o esperado.
Terminada a refeição, meu pai levantou um brinde ao futuro artístico de Beethoven em Viena e desculpou-se, pois estava atrasado para um encontro comercial e precisava sair.
— Senhor Beethoven! Nossa casa está sempre aberta
aos grandes músicos de nossa
cidade! — disse, despedindo-se.
Eu mal podia crer que estava ali, sozinha diante de “meu” Tamino. Meu coração explodia de felicidade!
Convidei-o a experimentar nosso piano:
— Temos um piano Walter em nossa sala de música, senhor Beethoven, certamente não tão valioso quanto o seu, mas está afinado. Desejaria experimentá-lo?
Beethoven nada respondeu e dirigiu-se em passos largos à sala de música, como se movido por uma atração irresistível. Lá chegando, abriu inteiramente o piano, retirando-lhe a tampa e conferindo seu interior, como um soldado conferindo a qualidade do seu cavalo. A seguir, sentou-se e tocou um acorde bem grave e forte e ficou a escutar, de olhos fechados, o som propagar-se pela sala.
— Boa acústica. Prefiro uma afinação levemente mais alta, mas, de resto, é um bom instrumento — disse ele, correndo todo o teclado em velozes escalas duplas. A seguir, manteve-se repetindo uma nota, como em um ritual de concentração.
Assentei-me em uma poltrona e fechei os olhos, enquanto agradecia a Deus pela felicidade que sentia, a maior que já havia experimentado em toda minha existência!
Beethoven pôs-se a improvisar, inicialmente um tema cantante para, a seguir, tomar todo o teclado em um caudal de força, brilho e expressividade. É difícil descrever seu estilo ao piano. Observando detidamente, notar-se-á que falta ao compositor a clareza e a elegância que sempre caracterizou o piano vienense. Porém, tamanha era expressividade de seus legatos, os efeitos novos e ousados retirados do pedal e o ímpeto arrebatador de seus arpejos, escalas e trinados, que era humanamente impossível não nos transportarmos aos cumes elevados do arrebatamento e do entusiasmo.
O maestro tocou sem parar por quase duas horas. Para mim, pareciam dois minutos, pois o tempo havia sumido, dissipando-se no enlevo sublime da mais pura emoção. De repente, o compositor parou de tocar. Ficou sério, olhando um ponto distante, como se estivesse em transe. Minutos depois, curvou-se sobre o teclado e encostou a testa sobre o móvel do piano. Pôs-se a dedilhar um arpejo, lentamente. Repetiu-o algumas vezes, até que dele brotasse uma melodia simples, composta de notas repetidas, sempre três vezes.
Eu jamais havia presenciado um momento como aquele. Percebi que havia uma atmosfera diferente no ambiente, um cheiro intenso de rosas e uma coloração diáfana em torno do compositor. Beethoven estava compondo! Quando o percebi, fui tomada de uma grande emoção, pois presenciava o momento mais sagrado da vida do artista, no qual as correntes de inspiração penetram-lhe a alma, possuindo-o por completo.
O que saía de seus dedos era uma música simples, formada por um acompanhamento em arpejos, como de uma harpa, seguido pela entrada de uma única nota solitária, como o coração de quem anseia pelo amor. Repetida sempre três vezes, como um eco profundo e silencioso, essa nota ressoava a voz recôndita da alma, como uma cantilena interior, ao mesmo tempo repleta e carente, alegre e tristonha, suave e árida, sensível e fria.
Lágrimas brotaram em meus olhos e escorreram silenciosas
por minha face. Eu mal
podia respirar tamanha era minha emoção diante do que eu via e
ouvia.
De repente, o compositor começou a apalpar os bolsos
com a mão direita, enquanto prosseguia a tocar com a outra. Imediatamente,
percebi que precisava de papel de música. Como fiel ajudante, apressei-me
em buscar uma folha pautada e um lápis, os
quais depositei sobre o piano. Beethoven pegou o papel e pôs-se a escrever
as notas da melodia, com uma caligrafia quase ilegível, certamente apenas
por ele mesmo decifrável.
Logo encheu todo o papel, escrevendo com incrível rapidez, como se envolto por um transe místico profundo.
Terminada a obra, o compositor ficou sentado ao piano, quieto
e calado. O silêncio da tarde tornou-se audível e, pela primeira
vez em minha vida, pude ouvir o silêncio, um som sibilante e sutil, como
o de um vento longínquo que nos traz a recordação de
um tempo que desconhecemos — o tempo do eterno agora.
Não sei quanto tempo ficamos ali, parados, ouvindo o silêncio. Apenas sei que, de repente, o compositor levantou-se, dirigiu-se até o vestíbulo, vestiu seu casaco e cartola e partiu sem nada dizer. Mas o que mais haveria para se dizer?
Lá fora, anoitecia e a lua cheia nascia no horizonte.
* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007
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