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Olá, ! A tese mais bem estruturada a respeito da identidade da mulher a quem Beethoven teria escrito as "cartas à Amada Imortal" (veja artigo com o sumário da investigação) foi levantada pelo biógrafo Maynard Solomon: Antonie Brentano seria a destinatária das misteriosas cartas. Neste link apresento uma síntese da tese de Solomon. Obs: © Copyright do autor (2008). Caso queira reproduzir este artigo ou parte dele, citá-lo ou usá-lo para qualquer outro fim, favor entrar em contato com o autor pelo e-mail falecom@mrmenezes.com.br )

A tese Antonie Brentano*

* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007

A tese mais bem estruturada a respeito da identidade da mulher que preencheria os requisitos deixados por W. A. Thomas-San-Galli e Max Unger foi levantada pelo biógrafo Maynard Solomon: Antonie Brentano seria a destinatária das misteriosas cartas. A tese de Solomon foi apresentada pela primeira vez em The New York Times, 21 de maio de 1972, seção 2, pág. 19. Seguiram-se os ensaios: “New Light on Beethoven´s Letter to an Unknow Woman” (1972) e “Antonie Brentano e Beethoven” (1977).

As bases da tese de Solomon, todas elas documentadas em seu “Beethoven” de 1977, são as seguintes:

- Antonie Brentano estava estreitamente ligada com Beethoven em Viena, durante o período que precedeu a carta;
- Antonie Brentano estava em Praga entre 1 e 4 de julho de 1812;
- Antonie Brentano estava em Karlsbad durante a semana de 6 de julho de 1812;
- Antonie Brentano e Beethoven voltariam a se encontrar em breve;
- Antonie Brentano era uma mulher com quem Beethoven tinha conhecimento ou com quem se familializara intimamente uns cinco anos antes de 1816. “Há cinco anos, Beethoven conheceu uma pessoa, com quem uma união o teria feito considerar-se premiado com a maior felicidade de sua vida. Não era para ser levado em conta de quase uma impossibilidade, uma quimera - Não obstante, está hoje como no primeiro dia”. Trecho de um relato de uma conversa entreouvida por Fanny Giannatasio em 1816, ocorrida entre Beethoven e o pai dela, e que ela registrou em seu diário.
- A primeira inicial do nome da Amada Imortal pode ter sido “A”: “Para ti, não mais existe qualquer felicidade exceto em ti mesmo, em tua arte - Oh Deus, concedei-me forças para me superar, pois nada me deve ligar à vida. Assim com A., tudo afunda.” (Registro datado de 1812 no Tagebuch de Beethoven)
- Em dezembro de 1811, Beethoven compôs uma canção, “An die Geliebte” (À bem amada). No canto superior da página autógrafa, há um texto escrito: “Pedida por mim ao autor em 2 de março de 1812”. Solomon, comparando a caligrafia com a de Antonie “acredita” ser dela a letra.
- Duas notas escritas por Beethoven em seu Tagebuch em 1816, podem ser relativas a Antonie (também chamada de Toni): “A respeito de T., nada resta senão confiar em Deus; nunca ir onde a fraqueza poderia levar a cometer uma inquidade; a Ele, somente a Ele, o Deus, onisciente, entregamos tudo isso”. “Mas para com T., sê tão bom quanto possível; a devoção dela merece jamais ser esquecida - embora, lamentavelmente, conseqüências vantajosas nunca possam daí resultar.”
- Por último, Solomon arrola a evidência do retrato misterioso (aguarde artigo sobre o retrato), alegando semelhanças (muito forçadas) entre a desconhecida dama e Antonie Brentano, tratando-se do único argumento que não pode ser aceito.

Quem era Antonie Brentano?

Antonie Brentano nasceu em 1780, em Viena, filha de um eminente estadista austríaco, Johann Melchior Edler von Birkenstock. Com a morte da mãe, em 1788, ela passa sete anos sendo educada em um convento. Volta a Viena em 1795 e, em 1796, seu pai recebe a visita de Franz Brentano. O comerciante de Frankfurt pergunta se Antonie está disponível e, ao voltar a Alemanha, inicia com ela um namoro por correspondência. Antonie não deseja o casamento, mas acaba aceitando se casar com Franz, submetendo-se aos desejos do pai. Muda-se então para Frankfurt e logo acha o novo lar frio e estranho. Sua relação com o marido também não parece ser nada satisfatória, embora ela sempre ressaltasse em suas cartas como ele era um homem dedicado e bom. “Eu não queria deixar meu marido saber como era difícil para mim, porque ele sempre foi tão carinhoso e amigo em seu relacionamento conjugal”. Com os anos, Antonie se torna uma mulher amargurada, deprimida e saudosa de Viena. Em 1809, ao saber que seu pai estava para morrer, retorna com os filhos para Viena, sendo logo seguida pelo marido, que estabelece uma filial de sua empresa na cidade. Em 1810, Bettina Brentano (meia irmã de Franz), em visita a Viena, vai visitar Beethoven e leva em sua companhia Antonie. Beethoven se encanta com Bettina (que deixou em suas cartas e diários os relatos de tais encontros), mas como ela logo se ausentaria de Viena, a amizade com Antonie é que floresce. Beethoven torna-se intimo dos Brentano e Antonie logo passa a venerar o compositor “Colocarei o original nas mãos sagradas de Beethoven, a quem venero profundamente. Ele caminha como um deus entre os mortais, uma atitude altaneira em relação ao mundo rasteiro, e sua digestão enferma só o agrava momentaneamente porque a Musa o beija e o aperta contra seu coração afetuoso” (Carta a Clemens Brentano em 1811). Antonie convence o marido a ficarem por três anos em Viena após a morte do pai (pela necessidade de preparar o leilão dos bens familiares). Porém, mesmo em Viena, ela se mantinha sempre em um estado doentio, talvez pela tensão de ter de retornar em breve a Frankfurt ou como uma forma de prolongar sua estadia. Segundo ela, somente Beethoven (que frequentemente tocava piano horas a fio para ela) a acalmava e consolava. Semanas antes da escrita da “carta”, ocorreria o leilão dos bens familiares, após o que haveria de chegar o momento temido por Antonie: a volta para Frankfurt.

A suposição de Solomon é a de que, nesse momento, Antonie teria buscado apoio em Beethoven, vendo possivelmente nele, não apenas alguém que a consolava e compreendia, mas uma forma de poder viver novamente em Viena, já que o marido necessitava retornar à Frankfurt e aos seus negócios. Podemos especular então que o amor entre ambos, de um sentimento platônico, teria passado para ela subitamente para o campo do possível e até mesmo do “urgente”, realidade que em muito se adequa ao clima tenso das “cartas” de Beethoven.

A reação à tese “Antonie Brentano”

A argumentação de Solomon - a mais bem fundamentada existente - divide até hoje os especialistas e os amantes de Beethoven. Podemos dizer que o núcleo dessa desconfiança esteja na possibilidade de que tal tese leve à conclusão (ou à simples suposição) de que o compositor houvesse traído o amigo Franz Brentano (que o ajudou financeiramente diversas vezes sem pedir jamais restituição) e, até mesmo, sido o pai do sexto filho do casal, que nasceria um ano após os fatos ocorridos em 1812. Nada leva a supor que tais coisas tenham acontecido, o que não invalida, entretanto, a possibilidade de que Antonie seja a Amada de Beethoven.

A contra-tese “Joséphine Deym”

A tese “joséphine Deym” foi apresentada inicialmente pelo francês La Mara(1), ampliada por Siegmund Kaznelson(2) e resgatada por Harry Goldschmidt(3).

(1) La Mara, Beethoven und die Brunsviks - Leipzig: Siegel, 1920.
(2) Siegmund Kaznelson, Beethovens ferne und unsterbliche Geliebte - Zurique: Standard-Buch, 1954.
(3) Harry Goldschmitd, Um die Unsterbliche Geliebte - Leipzig , 1977.

Histórico: Desde que chegou a Viena em 1799, Beethoven esteve cercado pela família Brunswick. As três irmãs, Therese, Josephine (Pepi) e Charlotte, tomaram classes de piano com Beethoven. “Pepi” se tornou aluna do compositor e logo formou-se uma amizade de Beethoven com toda a família. Em 1801, a bela Joséphine se casaria com o Conde Deym, 30 anos mais velho e teria com ele 4 filhos. O conde morreria em 1804. Nessa época a amizade de Beethoven com Joséphine se torna mais intensa. Há 14 cartas entre eles que dão conta de uma relação de amor. Ele a chama em uma das cartas de minha “única amada” (carta 151) e compõe para ela a canção “An die Hoffnung”. São as únicas cartas de amor - à parte das cartas à Amada Imortal - que se conservam do compositor. Embora a documentação existente de cartas e anotações indique que os sentimentos eram muito mais de Beethoven para Joséphine do que o contrário, tal situação dura até 1807, com altos e baixos e, finalmente, não pôde concretizar-se. Beethoven não era um homem da nobreza, e a condessa Deym tinha 4 filhos que teriam de ser criados por um nobre. As irmãs de Joséphine a advertem que tenha cuidado com aquela situação e que recorde que nada seria possível entre ambos. Tudo estava contra eles: a diferença de classe, a excentricidade de Beethoven, sua pouca solidez econômica e, finalmente, o mas importante, o tema da herança. Uma análise da correspondência entre Beethoven e Joséphine mostra que o relacionamento entre ambos era nutrido de um lado, por um forte desejo sensual de Beethoven e, de outro, por um profundo interesse “no prazer de sua companhia”, como dizia Joséphine. Em suas cartas, Beethoven mostra que tem esperanças no matrimonio, sente-se frequentemente enciumado e desconfiado e, mesmo consciente da diferencia de classe entre ambos, imaginava que sua excelência na arte poderia inclinar a balança a seu favor em algum momento. Finalmente, em 1807, ocorre um afastamento definitivo entre eles.

Teriam eles se reencontrado em 1812, na época em que Beethoven escreveu a famosa carta? Joséphine havia então se separado de seu segundo marido, o Conde von Stackelberg (com quem se casara em 1810 e tivera um casamento infeliz e mais três filhos). Ela se encontra viajando sozinha, sem seus filhos. É por esse fato que ela supostamente “poderia” ter estado em Praga e em Karlsbad, cumprindo assim os requisitos factuais da carta, entretanto, nenhuma evidência disso jamais foi encontrada. Nem um só indício. Uma única nota curiosa é que, igualmente a Antonie Brentano, 9 meses após as cartas à Amada Imortal, Pepi seria mãe novamente, de uma menina de nome Minona. Muito se especulou acerca de Minona, inclusive ser o seu nome uma charada (anagrama de Anonimus, teoria de Elisabeth Tellenbach). Porém, nada leva a crer que ela seja filha de Beethoven.

Antonie ou Joséphine? Uma conclusão:

Uma análise meticulosa das cartas à “Amada Imortal” mostra muito mais coerência na tese de Solomon. Afinal, estando Joséphine separada de seu segundo marido em 1812, parte do que Beethoven escreveu nas cartas não faria tanto sentido. Em 1813, Joséphine se separaria definitivamente do Conde von Stackelberg e viveria sozinha em Viena até 1821, perdendo inclusive a guarda de seus filhos. Por que então ela e Beethoven não se reaproximaram? Os termos da carta de 1812 são muito mais congruentes com a hipótese Antonie. Creio que a recusa de muitos quanto a tese de Solomon reside no medo de macular a imagem do compositor. Porém, poder-se-ia incriminar Beethoven ou Antonie apenas pelo fato de se amarem? Além disso, nada indica ou prova que tenham tido um relacionamento físico. A nota escrita por Beethoven em seu Tagebuch em 1816, que pode ser relativa a Antonie (também chamada de Toni), deixa bem clara a posição do compositor: “A respeito de T., nada resta senão confiar em Deus; nunca ir onde a fraqueza poderia levar a cometer uma iniqüidade; a Ele, somente a Ele, o Deus, onisciente, entregamos tudo isso”. A hipótese da paternidade do sexto filho de Antonie é bastante remota. Contudo, mesmo que o casal tivesse realmente tido um relacionamento mais intenso, isso tão pouco deveria ainda hoje ser motivo de tamanha reserva. O que importa, sobretudo, é o desfecho claramente digno que Beethoven teria dado ao caso (o que pode ser visto nas entrelinhas das “cartas”): a resignação. Em suma, a menos que surjam novos fatos (o que parece difícil após dois séculos de intensas pesquisas) a tese de Solomon parece fazer, portanto, muito mais sentido, não somente pela existência de elementos que a corroboram, mas, sobretudo porque com ela cada linha do texto das “cartas à Amada Imortal” ganha uma significação mais clara se considerarmos todos os aspectos envolvidos.

* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007



 
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