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O romance "A Gruta - Memórias da Amada Imortal" aborda
de forma livre e metafórica o tema da "Amada Imortal"
de Beethoven. Porém, o enredo respeita e segue os fatos históricos,
os quais podem ser conhecidos neste artigo. Caso tenha alguma dúvida,
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* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007
A primeira suposição sobre a identidade da destinatária partiu de Anton Schindler(1), em 1840, data da primeira publicação das cartas, época em que o secretário de Beethoven identificou a condessa Giulietta Guicciardi(2) como sendo a amada. Mais tarde, em 1860, ao escrever uma biografia de Beethoven(3), Schindler percebeu que nesta data a condessa já estava casada com o conde Gallenberg e passou a dizer que a carta poderia ter sido escrita em 1803 ou em data anterior. Hoje sabemos que ele próprio inserira a data de 1806 nas cartas(4). Alguns anos depois, em 1867, Ludwig Nohl(4), no segundo volume de sua biografia de Beethoven, continuando a aceitar a tese Giulietta, iniciou entretanto uma investigação mais detalhada sobre as datas propostas por Schindler (de 1801 a 1806). Ele encontrou tantas incongruências que deixou o assunto em suspenso.
(1) Anton Schindler (1795-1864) foi secretário de Beethoven entre 1822 e 1824 e após 1826.
(2) Condessa Giulietta Guicciardi (1784-1856). Prima das irmãs Brunsvik, foi aluna de Beethoven por volta de 1801 e teve um rápido romance com ele. Giulietta deu um retrato ao compositor que ele guardou por toda a vida. Casou-se com o Conde Robert von Gallenberg em 1803.
(3) Biographie von Ludwig van Beethoven - Münster, Aschendorf, 1840
(4) Segundo Barry Cooper, Schindler de fato parece ter adulterado diversos outros documentos de Beethoven e até mesmo furtado alguns. Em diversos documentos ele inseriu anotações espúrias, de modo a fazer parecer ser ele grande amigo e membro do círculo mais íntimo de Beethoven.
(5) Ludwig Nohl, Beethoven Leben - 3 vols. - Viena, 1864 e Leipzig, 1867)
Coube a Alexander W. Thayer, no terceiro volume de sua biografia(1), afirmar que não haveria problemas apenas com a data, mas com a destinatária. Thérèse von Brunsvik(2) seria para ele a amada, embora ele não indicasse quaisquer evidências a esse respeito. Com relação às datas, Thayer se deu conta de que, em 1806, o dia 6 de julho não caíra em uma segunda-feira. Os únicos anos possíveis então seriam: 1795, 1801, 1807, 1812 e 1818. Tentando encaixar sua teoria à carta, o pesquisador sugere um erro de Beethoven na data. A verdadeira preocupação de Thayer ao escolher Thérèse von Brunsvik era sobretudo a de, nas suas palavras: Justificar o caráter de Beethoven nesse período de sua vida. Tal preocupação ainda não se referia à Antonie Brentano, mas à possibilidade de que Beethoven houvesse se enamorado em 1806 de uma Giulietta já casada, ou de Therese Malfatti(3), que em 1806 tinha apenas quatorze anos de idade.
Uma breve tese Thérèse Malfatti, surgiria em 1890, com a descoberta de um livro escrito por Marie Hrussocsy, contendo um relato de Thérèse que causou enorme alvoroço. Nele, ela narrava o seu romance e até mesmo os seus esponsais secretos com o compositor, que teriam acontecido em 1806. A obra teve grande divulgação e chegou a ser aceita por vários estudiosos respeitados (como Sir George Grove), até se descobrir tratar-se de uma invenção de Therese(4).
Apenas em 1909 a tese de Thayer se viu totalmente abalada, após uma análise mais detalhada da documentação dos Brunsvik, que em nada suportava tal suposição.
(1) Alexander Wheelock Thayer, Ludwig van Beethoven Leben, 3 vols. - Berlim: Schneider, 1866: Weber, 1872, 1879). Várias reedições revistas e ampliadas se seguiram.
(2) Thérèse von Brunsvik (1775-1861), a mais velha das irmãs da família Brunsvik nunca se casou. Teve algumas aulas de piano com Beethoven e a ela foi dedicada a Sonata op. 78.
(3) Therese Malfatti (1792-1851): filha do Dr. Giovanni Malfatti, que cuidou de Beethoven em sua doença final. Diz-se que Beethoven propôs casamento a ela em 1810. Pour Elise foi provavelmente composta para ela.
(4) A. C. Kalisher, 1891.
Com o fim do dilema Giulietta ou Thérèse, pouco a pouco a incerteza sobre a identidade da Amada Imortal ganhou as ruas e os tablóides. Em 1911, o periódico alemão Die Musik publicou uma suposta nova carta que teria sido descoberta. Ela continha até mesmo uma pequena canção escrita por Beethoven à sua amada. Tudo não passava de uma invenção (provavelmente de Paul Bekker), unicamente no intuito de se divertir com a curiosidade crescente em torno do episódio. Apesar disso, a nova carta chegou a interessar e enganar até mesmo a alguns estudiosos.
Coube a W. A. Thomas-San-Galli(1), em 1911, prosseguir com a investigação, que ganharia agora ares mais científicos. Ele voltou ao tema das datas e, pela primeira vez, o ano de 1812(2) veio a tona. Max Unger, em seu ensaio Na pista da Amada Imortal(3), de 1911. reforçou ainda mais a tese 1812.
Os dados apresentados, corroborados por provas documentais, são:
- Beethoven se afastava de Viena todos os anos nos meses de verão, ficando em balneários nas cercanias da cidade;
- Nos anos de 1811 e 1812, nesse período ele viajou para a Boêmia;
- Ele deixou Viena nos dias 28 ou 29 de julho de 1812;
- Chegou a Praga no dia 1º de julho de 1812;
- Ao meio-dia de sábado, 4 de julho, embarcou para Teplitz. Simultaneamente, Anton Esterházy, embaixador austríaco, deixou Praga, com o mesmo destino (o que corrobora a descrição da viagem feita na carta).
- Beethoven chegou a Teplitz às 4 horas da manhã do dia 5 de julho;
- A carta à Amada Imortal foi escrita nos dias 6 e 7 de julho, em Teplitz;
- A partir disso, fica claro que K, somente poderia se referir a Karlsbad;
- Segue-se a conclusão de que a Amada Imortal estava (ou era esperada em) Karlsbad na semana de 6 de julho.
(1) W. A. Thomas-San-Galli, Die unsterbiliche Geliebten - Halle, Otto Hendel,
1909.
(2) Segundo Solomon (1977), tal ano havia sido rejeitado por Thayer talvez temendo
uma associação com Antonie Brentano.
(3) Max Unger, Auf Spuren vom Beethovens Unsterbliche Geliebten
- Lanegnsaiza: Hermann Beyer, 1911
* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007
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