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Lacrimosa - o último ensaio de Mozart*

* Trecho do romance "A Gruta - Memórias da Amada Imortal" escrito por M. R. Menezes © 2007

Viena, 4 de dezembro de 1791

No dia seguinte, acordei antes do nascer do sol, assustada com o bater de uma janela que deixara entreaberta. Fazia um frio intenso.

— Pai? — exclamei, assustada com um sonho estranho que eu tivera, ambientado, tal como A Flauta Mágica, no antigo Egito. Em meu sonho, Pamina era expulsa de uma grande pirâmide pela Rainha da Noite enquanto Tamino era conduzido acorrentado ao calabouço.

Levantei-me. Minhas costas doíam. Havia cochilado no sofá da sala de estar, à espera do retorno de meu pai e acabara dormindo por lá mesmo. A situação deveria ser extremamente grave para que meu pai dormisse fora de casa. Pensei em enviar Joséphine para saber notícias, mas era cedo demais. Teria que ir ver, pessoalmente, o que estava acontecendo.

Após fazer uma rápida refeição, dirigi-me à residência dos Mozart. Lá chegando, fui recebida por Constanze, que havia chegado de viagem. Ela carregava uma criança ao colo e parecia bastante nervosa.

— Mais visitas... Assim Wolfi e nunca terá paz! — reclamou ela, ao ver-me chegar, deixando-me constrangida.

Meu pai estava sentado em uma mesa lateral, a conversar com o doutor Closset, que também era seu médico pessoal, e com o doutor Sallaba38. Ao ver-me, repreendeu-me com o olhar, porém nada disse.

Sophie surgiu na sala de estar, trazendo uma bandeja de café. Ao que parece, todos haviam passado a noite em claro, tratando de Mozart. Sophie avisou-nos de que Süssmayr, discípulo e ajudante de Mozart, fora chamado às pressas. Estava no quarto, com o compositor, recebendo instruções sobre como terminar uma obra, um Réquiem, em caso de seu falecimento.

Ao ouvir aquilo, Constanze ficou ainda mais nervosa, e exclamou:

— Por que ele ainda trabalha nesse maldito Réquiem? Não compreendo!

A senhora Mozart nos contou as circunstâncias misteriosas que envolviam aquela encomenda:

— Em julho, poucos dias antes do nascimento de Franz Xaver, bateu à nossa porta um desconhecido, que se recusou a identificar-se e deixou meu marido encarregado da composição de um Réquiem. Deu-lhe um bom adiantamento e avisou que retornaria em um mês. Pouco tempo depois, Wolfi e seria chamado a Praga para escrever a ópera A clemência de Tito41, para festejar a coroação de Leopoldo II. Quando subíamos na carruagem que nos levaria a essa cidade, o desconhecido apresentou-se outra vez, perguntado por sua encomenda. Wolfi e, que é muito sensível ao sobrenatural, impressionado pelo aspecto misterioso do homem, terminou por acreditar que esse era um mensageiro do destino e que o Réquiem que iria compor seria para seu próprio funeral. Infelizmente, ninguém consegue afastar essa idéia de sua mente...

Fiquei impressionada com aquele relato. Enquanto as horas passavam lentamente, meu pai andava nervosamente de um lado ao outro da sala. O silêncio reinante no apartamento já era o prenúncio de um velório. Os únicos sons que ouvíamos eram os dos passos compassados de meu pai. Ao longe, podia-se ouvir a fraca voz do compositor, a cantarolar uma melodia.

— Que esforço inútil! — reclamava Constanze a todo o momento.

Perto da hora do almoço, Süssmayr saiu do quarto de Mozart carregando um maço de papéis de música. Passou por nós apressadamente e abandonou o apartamento sem
nada dizer.

A seguir, entraram no aposento do compositor os doutores, enquanto Sophie nos oferecia outro café.

Meu pai avisou-me que teria de se ausentar por algumas horas:

— Aonde o senhor vai? — perguntei.

— Preciso resolver algo importante.

O almoço nos foi servido, um ensopado com batatas. O prato de Mozart voltou sem ser tocado. Após a refeição, os doutores reiniciaram os cuidados com o compositor.

Cada momento em que a porta do quarto se abria era repleto de angústia. Sophie ia e vinha a todo instante carregando bacias de água quente. Como último recurso, os doutores haviam resolvido aplicar sangrias no compositor.

No meio da tarde, os doutores partiram. A casa ficou incrivelmente silenciosa. Logo chegaram três amigos de Mozart para uma visita: Schack, Hofer e o cantor Gerl, todos membros do Freihaustheater.

Sophie ficou preocupada que tais visitas pudessem exaurir ainda mais o cunhado e pediu que voltassem em outro momento. Mozart ouviu-os chegar e pediu que eles entrassem em seu quarto. Foi quando eu também adentrei os aposentos do compositor.

O maestro estava recostado na cama. Sua pequena estatura e semblante pálido faziam-no parecer uma criança acamada. Seus lindos cabelos loiros espalhavam-se pelo travesseiro como uma cachoeira dourada. Tinha o rosto, os pés e as mãos bastante inchados.

Seu braço esquerdo estava amarrado com uma faixa em função das sangrias. Mozart sorriu ao ver os amigos entrarem. Indicou-lhes uma gaveta em seu criado e pediu que os amigos recém-chegados pegassem uma partitura. Ele queria que cantassem para ele trechos da obra que compusera naquela manhã. As partituras foram espalhadas em sua cama. Visivelmente constrangidos, os cantores se amontoaram por detrás do original quase ilegível e entoaram alguns trechos da Lacrimosa. Mozart participou, como pôde, corrigindo algumas falhas de leitura e cantando com o pouco fôlego que ainda lhe restava a parte do contralto.

Ao final do patético ensaio, o compositor exclamou:

— Era isso mesmo que eu tinha em mente. Obrigado, meus amigos! Agora posso
descansar...

Em toda minha vida eu jamais chegaria a ver novamente cena tão pungente e dolorosa: um compositor moribundo ensaiando seu próprio Réquiem... As lágrimas corriam silenciosas por minha face e até hoje não posso recordar-me dessa cena sem me comover.

Terminado o dramático ensaio, Sophie sugeriu que o deixássemos descansar. Foi quando ouvi o compositor dizer, balbuciando com o olhar fixo no infinito:

— Os anjos do Senhor já estão aqui. Posso senti-los. Em breve estarei visitando a cidade de Deus...

Eu estava tão agitada e emocionada que não consegui ficar sozinha na sala após a saída dos cantores. Preferi ir para a cozinha e ajudar Sophie na preparação do jantar. Constanze, que permanecia no quarto ao lado do marido, parecia estar resignada. Ao final da tarde, meu pai retornou. Eu estava ansiosa e preocupada com sua demora.

— Onde o senhor esteve? Demorou-se bem mais do que eu esperava! — repreendi- o.

— Eu tinha que esclarecer algumas coisas, fi lha... Como está o compositor?

Eis que Constanze saiu do quarto e avisou que o marido entrara em estado de inconsciência.

Diante do grave enunciado, meu pai chamou um cocheiro e ordenou que ele fosse buscar o médico às pressas. Sentíamos que aquele drama estava se aproximando
de seu desfecho.

O cocheiro retornou, algum tempo depois, sem trazer o doutor. Ele havia ido ao teatro.

— Pois vá ao teatro buscá-lo, agora! — esbravejou meu pai.

— Mas eu fui, meu senhor! O doutor mandou avisar que virá assim que terminar a cena.

O recado um tanto displicente do doutor chocou a todos. Afinal, parecia inacreditável que o maior compositor de óperas de todos os tempos não houvesse sido digno de que seu médico interrompesse a sessão para acudi-lo...

Duas horas depois, quando o médico chegou, o clima entre nós já era de consternação diante do que nos parecia cada vez mais inevitável. Mozart continuava inconsciente e tinha as extremidades cada vez mais frias. O doutor, agora apressado, pediu a Sophie que umedecesse a testa do compositor com vinagre e água fria.

Sophie, visivelmente irritada com a demora do médico, não se mostrou contente com aquela prescrição e questionou sua eficácia. O doutor insistiu para que ela assim o fizesse.

Sophie concordou e preparou a receita. Entrou sozinha no quarto e lá ficou por cerca de meia hora. Segundo nos relatou posteriormente, Mozart parecia estar semi-consciente quando ela lhe aplicou a toalha úmida na testa conforme o médico prescrevera.

O compositor teve, então, um leve estremecimento ante a compressa gelada e, minutos depois, exalou o último ar de seus pulmões.

Faltavam cinco minutos para uma da manhã, do dia 5 de dezembro de 1791, quando Sophie saiu do quarto e, embora seu semblante já dissesse tudo, exclamou:

— Ele está morto!

Um profundo silêncio tomou conta de todos nós. Constanze, em prantos, nos reuniu ao redor da cama do marido para uma prece. Deitado em seu leito de morte, Mozart parecia sereno, um pequeno anjo que retornava ao céu.

* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007



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Comentários:


O. H. P. / Data: 10/12/2008
Assistí o vídeo, muito bem elaborado, denota a indubitavel capacidade artística do seu autor. Quando música, como um excêntrico admirador desse gênero, nada poderia dizer menos que: Espetacular, que só poderia vir do grande Mozart. Uma nota dez não seria o suficente para exaltar a tamanha magnitude desse extraordinário gênio.