Clique aqui
 

Olá, !
Em 1791, quando escrevia a "Flauta Mágica", Mozart redigiu o manifesto para a criação de uma ordem esotérica que se chamaria "A Gruta". O manuscrito está perdido. Saiba mais sobre isso neste artigo. Caso tenha alguma dúvida ou queira enviar um comentário use o formulário ao final do artigo. Seja sempre bem-vindo(a). Obs: © Caso queira reproduzir este artigo ou parte dele, citá-lo ou usá-lo para qualquer outro fim, favor entrar em contato com o autor pelo e-mail falecom@mrmenezes.com.br )


O manifesto da "Gruta"

Em 27 de novembro de 1800, Constanze Mozart, viúva de W. A. Mozart, enviou ao editor Breitkopf & Härtel, em Leipzig, uma carta em que mencionava um plano redigido por seu marido para uma nova sociedade secreta que ele desejara fundar, sob o nome de “A Gruta”.

Mozart chegara a redigir os estatutos e as obrigações dos membros, porém, o projeto não chegou a se concretizar por causa de sua morte prematura. Os documentos escritos por ele de próprio punho se perderam e apenas sabemos de seu propósito devido a essa carta, na qual Constanze se referia ao assunto nos seguintes termos:

“Aqui lhe empresto, para uso na biografia (de Mozart), umas coisas que lhe peço que me devolva de novo (...) um artigo, em sua maior parte manuscrito por meu marido, de uma ordem ou sociedade que ele queria estabelecer chamada Gruta. Não posso lhe dar mais explicações. O clarinetista da corte de Viena, Stadler, que foi quem escreveu o resto, poderia fazê-lo, porém não deseja fazê-lo, pois sabe como são odiadas tais ordens ou sociedades secretas hoje em dia”. (Anton Stadler, grande clarinetista, amigo y companheiro maçom de Mozart, a quem este dedicou algumas de suas melhores obras, morreu em 1812 levando consigo o secreto sobre o que consistiria “A Gruta”).

Por ser tal manuscrito contemporâneo de “A Flauta Mágica”, o maestro e escritor M. R. Menezes supôs que o que W. A. Mozart houvesse cogitado criar não seria uma ordem convencional, mas uma ordem esotérica mista, seguindo os moldes de sua ópera. Tal suposição baseia-se no fato de que sua ópera inovava não apenas por mostrar no palco abertamente a “filosofia da iluminação” mas, principalmente, por incluir o elemento “feminino” no processo iniciático, algo que era visto com reserva no meio maçônico.

“A Flauta Mágica” pode ser considerada o testamento musical e espiritual de Mozart. A idéia central sob a qual foi concebida é a questão do feminino. Mozart, que havia de certo modo “brincado” com o tema da “inferioridade” feminina em suas óperas com Da Ponte, agora assumia uma postura quase revolucionária a respeito da exclusão do feminino da vida culta e do espírito.

A Maçonaria, seguindo a tradição patriarcal, limitava a admissão a “homens de boa reputação”, excluindo “escravos, mulheres ou pessoas amorais ou desacreditadas”. Com a popularização das confrarias, surgira o desejo das mulheres de participarem da ordem. Para tanto, haviam sido criadas as “Lojas de Adoção”. Porém, nelas as mulheres não tinham acesso às iniciações regulares.

Breve histórico de Mozart na Maçonaria

No dia 14 de dezembro de 1784, Mozart era oficialmente admitido no seio da Maçonaria. Porém, sua ligação com o meio maçônico é bem anterior. Aos 11 anos, medicado devido a sintomas de varíola, Mozart ofereceu a seu médico, o Dr. Wolff de Olmutz, uma pequena ária a título de agradecimento (An die Freude K. 53), que já se tratava de um texto maçônico. No ano seguinte, compôs “Bastien und Bastienne”. Sua pequena obra foi representada nos jardins do Dr. Mesmer, apóstolo do “mesmerismo” ou “magnetismo animal”. Mesmer era maçom e criara, em 1783, uma sociedade maçônica em Paris sob o título de “Ordem da Harmonia Universal”. Aos 16 anos, em 1772, Mozart compôs uma ária sobre as palavras de um hino ritual, “O heiliges Band”. No ano seguinte, 1773, foi escolhido para escrever a música de cena do drama maçônico “Thamos”, que ele remanejaria em 1779. A 5 de dezembro de 1784, foi apresentado à Loja “À Benfeitora” (Zur Wohltätigkeit) sendo iniciado no grau de aprendiz e, menos de um mês depois, a 7 de janeiro de 1785, iniciado no grau de companheiro. Três meses depois tornou-se mestre Maçom (dia 22 de abril). Na Loja presidida Ignaz von Born (Zur wahren Eintracht), Mozart foi iniciado no grau de companheiro. Nesse momento, Mozart compôs seu famoso quarteto chamado “As Dissonâncias”, cuja introdução anuncia a abertura de “A Flauta mágica”. Mozart faleceu a 5 de dezembro de 1791, poucas semanas após a estréia de sua ópera “A Flauta Mágica”, primeira a abordar no palco simbolismos da confraria.

Tudo indica que a grande inspiração de Mozart em sua última ópera tenha sido a maçonaria Egípcia de Cagliostro, primeira tentativa de se criar uma Loja regular feminina, com iniciações. Ao apresentar Tamino e Pamina ao final da ópera, com vestes sacerdotais, Mozart deixara clara a sua intenção de valorizar o elemento feminino e colocá-lo em pé de igualdade com o masculino. Mais ainda do que valorizar o feminino, Mozart claramente pretendia valorizar o casal, não o casal profano (“Papageno” e “Papagena”), mas sim, o casal iniciado. O enredo do ópera procurava mostrar como as mulheres estariam na obscuridade (“A Rainha da Noite”) por não poderem receber as iniciações. Através do “casal iniciado” Tamino e Pamina, tal abismo poderia ser transposto.

Tudo isso levou o maestro e escritor M. R. Menezes a considerar a hipótese de que “A Gruta” seria uma tentativa de Mozart de por em prática o ideal expresso em “A Flauta Mágica”. Na obra “A Gruta - Memórias da Amada Imortal”, o autor escreve uma versão ficcional do que poderia ter sido o “Manifesto da Gruta” de Mozart:

“Irmãos! Precisamos criar uma nova Loja em Viena, fundada nos valores da igualdade entre homens e mulheres e na exaltação do amor não apenas fraternal, mas também conjugal, como um caminho rumo à divindade...“

(Veja o Manifesto completo em: "A Gruta - Memórias da Amada Imortal" - M. R. Menezes 2007, ProLíbera Editora)

Leituras sugeridas:
- CHAILLEY, Jacques. A Flauta Mágica. Ópera maçônica. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1994.
- HAVEN, Marc. Cagliostro, o grande mestre do oculto. Editora Madras, São Paulo, 2005.
- LANDON, H. C. Robbins (org.): Mozart: Um Compêndio. Guia completo da música e da vida de Wolfgang Amadeus Mozart. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996.



 
Comentários:

Nome (iniciais)/ Data: -/-/-
Comentário.