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Novo artigo: Confesso: sou um romântico! (mas, alguém sabe ainda o que vem a ser isso?) escrito por M. R. Menezes (junho de 2010)

O enigma das frases egípcias anotadas por Beethoven

Artigo de M. R. Menezes © 2007)

Beethoven copiou e manteve emolduradas e sob vidro em sua escrivaninha até o final de sua vida duas antigas inscrições egípcias. Tais axiomas Beethoven tinha, segundo Anton Schindler, como autêntica “profissão de fé”:

“Eu sou aquilo que é, eu sou tudo o que é, que foi e que será. Nenhum homem mortal levantou o meu véu”; “Ele é só de si mesmo e é a essa solidão que todas as coisas devem ser”.

Em alemão:
"Ich Bin, Was da ist. Ich bin alles, was ist, was war, und was eyn wird, Kein sterblicher Mensch hat meinen Schleyer aufgehoben" "Er ist einzig von ihm selbst, u. diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Daseyn schuldig"

Essas palavras foram extraídas do ensaio “Die Sendung Moses” de Friedrich Schiller (1759-1805) poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão e versam sobre a fundação de Israel por Moisés. Ao longo do ensaio, Schiller observa semelhanças entre os preceitos de Moisés e os dos antigos Mistérios Egípcios e mostra como a partir de iniciações realizadas nos templos egípcios, o iniciado chegava a ter acesso a verdades muitos semelhantes àquelas que o patriarca Moisés revelaria mais tarde, no Sinai, inclusive, a famosa expressão “Eu sou aquilo que é”.

Eis o trecho:
Da es ziemlich ausgemacht ist, dass die ägyptischen Mysterien schon lange geblüht haben, ehe Jehovah dem Moses in dem Dornbusch erschien, so ist es wirklich auffallend, dass er sich gerade denselben Namen gibt, den er vorher in den Mysterien der Isis führte. (…)Unter einer alten Bildsäule der Isis las man die Worte: „Ich bin, was da ist“, und auf einer Pyramide zu Sais fand man die uralte merkwürdige Inschrift: „Ich bin alles, was ist, was war und was sein wird; kein sterblicher Mensch hat meinen Schleier aufgehoben.“ (…) In dem Hymnus, den der Hierophant oder Vorsteher des Heiligtums dem Einzuweihenden vorsang, war dies der erste Aufschluss, der über die Natur der Gottheit gegeben wurde. „Er ist einzig und von ihm selbst, und diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Dasein schuldig.“ “Die Sendung Moses” de Friedrich Schiller

Embora Schiller nos fale de Ísis, a primeira frase fora encontrada em uma coluna de um templo dedicado à deusa Neith e representa o antigo “credo” da deusa: Eu sou aquilo que é, eu sou tudo o que é, que foi e que será. Nenhum homem mortal levantou o meu véu.

De acordo com a lenda, Neith é a maior e primeira das deusas egípcias. Ela emergiu das águas primevas. Seu nome significa "Eu venho de mim mesma", ou autoconcebida. Ela se autogerou e como a "Mãe Original", uma divindade andrógina, englobava tanto o feminino como o masculino. A sua bissexualidade era original, não tendo recorrido a nenhum deus masculino para iniciar a concepção dos vários elementos seguintes do Cosmos.

Há um complemento a essa frase, não citado por Schiller em seu ensaio (por isso provavelmente desconhecida para Beethoven): “O fruto que para é o sol”. Isto porque a deusa Neith surge do caos primordial para auxiliar o nascimento do Sol. Muitas referências feitas ao renascimento do Sol nos vários pontos do céu durante as mudanças sazonais demonstram os diferentes aspectos de Neith, que reina em forma de Deusa celeste. Neith, ao auxiliar o nascimento do Sol, é a criadora única de tudo que está no interior da terra, minerais e pedras preciosas, a "Senhora do Deserto", a "Senhora do Mar", o "Grande Tudo", a "Todo-Poderosa", "a Mãe dos deuses".

Com o desenvolvimento de uma visão espiritual patriarcal, a idéia de que o princípio feminino seja uma realidade em si, e não derivada do masculino, foi desaparecendo. As Deusas partenogenéticas (criadas por si mesmas sem a ajuda da inseminação do varão), gradualmente se transformaram em noivas, esposas e filhas, como resposta ao sistema patriarcal e patrilinear. Com a Deusa Neith, não foi diferente. Ela passa a ser esposa de Seth (e de outros deuses posteriormente).

Uma vez que se passa a considerar o princípio masculino superior, os valores masculinos ganharam força sobre os femininos, o que acabou por legitimar ideologicamente toda uma estrutura social na qual o homem é o detentor do poder material e espiritual. Isso gerou um desequilíbrio na alma humana, fazendo com que os valores femininos ficassem enfraquecidos dentro de cada ser.

A segunda frase copiada por Beethoven, segundo estudiosos (como Solomon, 1977), já é datada desse período egípcio mais patriarcal, e foi extraída de um hino que o sacerdote do templo declamava para o iniciado: Ele é só de si mesmo e é a essa solidão que todas as coisas devem ser.

Compreender a alquimia das duas frases anotadas por Beethoven pode ser considerada a base mítica e espiritual que sustenta o enredo de “A Gruta”. Tais frases foram anotadas por Beethoven possivelmente porque nelas ele intuiu a existência de um desafio espiritual, qual seja, a unificação dos princípios espirituais masculino e feminino, base da harmonia interna da alma.

Todos esses elementos internos estarão em jogo nas “cartas à Amada Imortal”. Nelas vemos um homem em busca do amor, atormentado pela solidão, pela aparente impossibilidade amorosa e mirando para o espiritual e o divino que existe no amor como um consolo. As cartas foram escritas de forma um tanto confusa e apresentam um discurso que mescla e alterna desejo, angústia, esperança, fé, sublimação e resignação.

Podemos dizer que Beethoven deixou em suas cartas (bem como em suas músicas) um pungente desafio à regeneração espiritual masculina. Tarefa grandiosa que tentaria ser concluída por seu controverso seguidor e quase apóstolo Richard Wagner, o qual também a deixou inconclusa (Richard Wagner, após escrever ao longo de sua vida diversas óperas em torno da temática do feminino, morreria repentinamente de ataque cardíaco enquanto escrevia um artigo sobre o “sagrado feminino”).

“A Gruta” é uma tentativa de resgatar essa busca que permanece ainda hoje como um profundo desafio espiritual: a re-unificação interna de espírito e matéria, dos aspectos espirituais femininos da alma com os aspectos masculinos do poder, vontade, verdade, coragem e o desejo de criar (cujo uso desconectado do feminino redundou em abuso), do nosso componente biológico mortal e nosso espírito divino imortal.

“A Gruta” não fornece respostas para tal grandioso desafio, apenas reapresenta as peças do quebra-cabeças e re-expõe (como uma velha sonata-forma) o caminho. Porém indica que o prêmio para quem conseguir montá-lo dentro de si mesmo será o re-encontro com sua própria alma imortal e, suprema ventura, com a Grande Alma Universal, a venerável “Amada Imortal”, no útero cósmico da Deusa-mãe, arquétipo maior do feminino divino, a consorte inefável do Criador, senhora de toda a Sua Criação. (Artigo de M. R. Menezes © 2007)

 


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