Beethoven copiou e
manteve emolduradas e sob vidro em sua escrivaninha até
o final de sua vida duas antigas inscrições
egípcias. Tais axiomas Beethoven tinha, segundo
Anton Schindler, como autêntica “profissão
de fé”:
“Eu
sou aquilo que é, eu sou tudo o que é, que
foi e que será. Nenhum homem mortal levantou o
meu véu”; “Ele é só de
si mesmo e é a essa solidão que todas as
coisas devem ser”.
Em alemão:
"Ich Bin, Was da ist. Ich bin alles, was ist,
was war, und was eyn wird, Kein sterblicher Mensch hat
meinen Schleyer aufgehoben" "Er ist einzig von
ihm selbst, u. diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Daseyn
schuldig"
Essas palavras foram
extraídas do ensaio “Die Sendung
Moses” de Friedrich Schiller (1759-1805)
poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão
e versam sobre a fundação de Israel por
Moisés. Ao longo do ensaio, Schiller observa semelhanças
entre os preceitos de Moisés e os dos antigos Mistérios
Egípcios e mostra como a partir de iniciações
realizadas nos templos egípcios, o iniciado chegava
a ter acesso a verdades muitos semelhantes àquelas
que o patriarca Moisés revelaria mais tarde, no
Sinai, inclusive, a famosa expressão “Eu
sou aquilo que é”.
Eis o trecho:
Da es ziemlich ausgemacht ist, dass die ägyptischen
Mysterien schon lange geblüht haben, ehe Jehovah
dem Moses in dem Dornbusch erschien, so ist es wirklich
auffallend, dass er sich gerade denselben Namen gibt,
den er vorher in den Mysterien der Isis führte. (…)Unter
einer alten Bildsäule der Isis las man die Worte:
„Ich bin, was da ist“, und auf einer Pyramide
zu Sais fand man die uralte merkwürdige Inschrift:
„Ich bin alles, was ist, was war und was sein wird;
kein sterblicher Mensch hat meinen Schleier aufgehoben.“
(…) In dem Hymnus, den der Hierophant oder Vorsteher
des Heiligtums dem Einzuweihenden vorsang, war dies der
erste Aufschluss, der über die Natur der Gottheit
gegeben wurde. „Er ist einzig und von ihm selbst,
und diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Dasein schuldig.“
“Die Sendung Moses” de Friedrich Schiller
Embora Schiller nos
fale de Ísis, a primeira frase fora encontrada
em uma coluna de um templo dedicado à deusa
Neith e representa o antigo “credo”
da deusa: Eu sou aquilo que é, eu sou tudo
o que é, que foi e que será. Nenhum homem
mortal levantou o meu véu.
De acordo com a lenda,
Neith é a maior e primeira das deusas egípcias.
Ela emergiu das águas primevas. Seu nome significa
"Eu venho de mim mesma", ou autoconcebida. Ela
se autogerou e como a "Mãe Original",
uma divindade andrógina, englobava tanto o feminino
como o masculino. A sua bissexualidade era original, não
tendo recorrido a nenhum deus masculino para iniciar a
concepção dos vários elementos seguintes
do Cosmos.
Há um complemento
a essa frase, não citado por Schiller em seu ensaio
(por isso provavelmente desconhecida para Beethoven):
“O fruto que para é o sol”.
Isto porque a deusa Neith surge do caos primordial para
auxiliar o nascimento do Sol. Muitas referências
feitas ao renascimento do Sol nos vários pontos
do céu durante as mudanças sazonais demonstram
os diferentes aspectos de Neith, que reina em forma de
Deusa celeste. Neith, ao auxiliar o nascimento do Sol,
é a criadora única de tudo que está
no interior da terra, minerais e pedras preciosas, a "Senhora
do Deserto", a "Senhora do Mar", o "Grande
Tudo", a "Todo-Poderosa", "a Mãe
dos deuses".
Com o desenvolvimento
de uma visão espiritual patriarcal, a idéia
de que o princípio feminino seja uma realidade
em si, e não derivada do masculino, foi desaparecendo.
As Deusas partenogenéticas (criadas por si mesmas
sem a ajuda da inseminação do varão),
gradualmente se transformaram em noivas, esposas e filhas,
como resposta ao sistema patriarcal e patrilinear. Com
a Deusa Neith, não foi diferente. Ela passa a ser
esposa de Seth (e de outros deuses posteriormente).
Uma vez que se passa
a considerar o princípio masculino superior, os
valores masculinos ganharam força sobre os femininos,
o que acabou por legitimar ideologicamente toda uma estrutura
social na qual o homem é o detentor do poder material
e espiritual. Isso gerou um desequilíbrio na alma
humana, fazendo com que os valores femininos ficassem
enfraquecidos dentro de cada ser.
A segunda frase copiada
por Beethoven, segundo estudiosos (como Solomon, 1977),
já é datada desse período egípcio
mais patriarcal, e foi extraída de um hino que
o sacerdote do templo declamava para o iniciado: Ele
é só de si mesmo e é a essa solidão
que todas as coisas devem ser.
Compreender a alquimia
das duas frases anotadas por Beethoven pode ser considerada
a base mítica e espiritual que sustenta o enredo
de “A Gruta”. Tais frases foram anotadas por
Beethoven possivelmente porque nelas ele intuiu a existência
de um desafio espiritual, qual seja, a unificação
dos princípios espirituais masculino e feminino,
base da harmonia interna da alma.
Todos esses elementos
internos estarão em jogo nas “cartas à
Amada Imortal”. Nelas vemos um homem em busca do
amor, atormentado pela solidão, pela aparente impossibilidade
amorosa e mirando para o espiritual e o divino que existe
no amor como um consolo. As cartas foram escritas de forma
um tanto confusa e apresentam um discurso que mescla e
alterna desejo, angústia, esperança, fé,
sublimação e resignação.
Podemos dizer que
Beethoven deixou em suas cartas (bem como em suas músicas)
um pungente desafio à regeneração
espiritual masculina. Tarefa grandiosa que tentaria ser
concluída por seu controverso seguidor e quase
apóstolo Richard Wagner, o qual também a
deixou inconclusa (Richard Wagner, após escrever
ao longo de sua vida diversas óperas em torno da
temática do feminino, morreria repentinamente de
ataque cardíaco enquanto escrevia um artigo sobre
o “sagrado feminino”).
“A Gruta”
é uma tentativa de resgatar essa busca que permanece
ainda hoje como um profundo desafio espiritual: a re-unificação
interna de espírito e matéria, dos aspectos
espirituais femininos da alma com os aspectos masculinos
do poder, vontade, verdade, coragem e o desejo de criar
(cujo uso desconectado do feminino redundou em abuso),
do nosso componente biológico mortal e nosso espírito
divino imortal.
“A Gruta”
não fornece respostas para tal grandioso desafio,
apenas reapresenta as peças do quebra-cabeças
e re-expõe (como uma velha sonata-forma) o caminho.
Porém indica que o prêmio para quem conseguir
montá-lo dentro de si mesmo será o re-encontro
com sua própria alma imortal e, suprema ventura,
com a Grande Alma Universal, a venerável “Amada
Imortal”, no útero cósmico da Deusa-mãe,
arquétipo maior do feminino divino, a consorte inefável
do Criador, senhora de toda a Sua Criação.
(Artigo de M. R. Menezes © 2007)