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O enredo de "A Gruta" gira em torno de duas frases egípcias que Beethoven manteve emolduradas diante de sua escrivaninha por toda sua vida. Saiba mais sobre isso neste artigo. Caso tenha alguma dúvida ou queira enviar um comentário use o formulário ao final do artigo. Seja sempre bem-vindo(a). Obs: © Caso queira reproduzir este artigo ou parte dele, citá-lo ou usá-lo para qualquer outro fim, favor entrar em contato com o autor pelo e-mail falecom@mrmenezes.com.br )


O enigma das frases anotadas por Beethoven

(Artigo de M. R. Menezes © 2007)

Beethoven copiou e manteve emolduradas e sob vidro em sua escrivaninha até o final de sua vida duas antigas inscrições egípcias. Tais axiomas Beethoven tinha, segundo Anton Schindler, como autêntica “profissão de fé”:

“Eu sou aquilo que é, eu sou tudo o que é, que foi e que será. Nenhum homem mortal levantou o meu véu”; “Ele é só de si mesmo e é a essa solidão que todas as coisas devem ser”.

Em alemão:
"Ich Bin, Was da ist. Ich bin alles, was ist, was war, und was eyn wird, Kein sterblicher Mensch hat meinen Schleyer aufgehoben" "Er ist einzig von ihm selbst, u. diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Daseyn schuldig"



Os direitos para uso comercial desta imagem pertencem ŕ Beethoven-Haus, Bonn

Essas palavras foram extraídas do ensaio “Die Sendung Moses” de Friedrich Schiller (1759-1805) poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão e versam sobre a fundação de Israel por Moisés. Ao longo do ensaio, Schiller observa semelhanças entre os preceitos de Moisés e os dos antigos Mistérios Egípcios e mostra como a partir de iniciações realizadas nos templos egípcios, o iniciado chegava a ter acesso a verdades muitos semelhantes àquelas que o patriarca Moisés revelaria mais tarde, no Sinai, inclusive, a famosa expressão “Eu sou aquilo que é”.

Eis o trecho:
Da es ziemlich ausgemacht ist, dass die ägyptischen Mysterien schon lange geblüht haben, ehe Jehovah dem Moses in dem Dornbusch erschien, so ist es wirklich auffallend, dass er sich gerade denselben Namen gibt, den er vorher in den Mysterien der Isis führte. (…)Unter einer alten Bildsäule der Isis las man die Worte: „Ich bin, was da ist“, und auf einer Pyramide zu Sais fand man die uralte merkwürdige Inschrift: „Ich bin alles, was ist, was war und was sein wird; kein sterblicher Mensch hat meinen Schleier aufgehoben.“ (…) In dem Hymnus, den der Hierophant oder Vorsteher des Heiligtums dem Einzuweihenden vorsang, war dies der erste Aufschluss, der über die Natur der Gottheit gegeben wurde. „Er ist einzig und von ihm selbst, und diesem Einzigen sind alle Dinge ihr Dasein schuldig.“ “Die Sendung Moses” de Friedrich Schiller

Embora Schiller nos fale de Ísis, a primeira frase fora encontrada em uma coluna de um templo dedicado à deusa Neith e representa o antigo “credo” da deusa: Eu sou aquilo que é, eu sou tudo o que é, que foi e que será. Nenhum homem mortal levantou o meu véu.

De acordo com a lenda, Neith é a maior e primeira das deusas egípcias. Ela emergiu das águas primevas. Seu nome significa "Eu venho de mim mesma", ou autoconcebida. Ela se autogerou e como a "Mãe Original", uma divindade andrógina, englobava tanto o feminino como o masculino. A sua bissexualidade era original, não tendo recorrido a nenhum deus masculino para iniciar a concepção dos vários elementos seguintes do Cosmos.

Há um complemento a essa frase, não citado por Schiller em seu ensaio (por isso provavelmente desconhecida para Beethoven): “O fruto que para é o sol”. Isto porque a deusa Neith surge do caos primordial para auxiliar o nascimento do Sol. Muitas referências feitas ao renascimento do Sol nos vários pontos do céu durante as mudanças sazonais demonstram os diferentes aspectos de Neith, que reina em forma de Deusa celeste. Neith, ao auxiliar o nascimento do Sol, é a criadora única de tudo que está no interior da terra, minerais e pedras preciosas, a "Senhora do Deserto", a "Senhora do Mar", o "Grande Tudo", a "Todo-Poderosa", "a Mãe dos deuses".

A porção feminina divina era compreendida no antigo Egito de forma tríplice: Neith (a mãe original), Nut (mãe celeste) e Ísis (filha de Nut, esposa e mãe terrena e divinas). Este triplo princípio feminino consolidou-se nas tradições egípcias desde tempos imemoriais até ser destronado pelo patriarcalismo de Amon-Rá e pelo culto a Aton, quando ocorre uma “masculinização” dos céus.

Com o desenvolvimento de uma visão espiritual patriarcal, a idéia de que o princípio feminino seja uma realidade em si, e não derivada do masculino, foi desaparecendo. As Deusas partenogenéticas (criadas por si mesmas sem a ajuda da inseminação do varão), gradualmente se transformaram em noivas, esposas e filhas, como resposta ao sistema patriarcal e patrilinear. Com a Deusa Neith, não foi diferente. Ela passa a ser esposa de Seth (e de outros deuses posteriormente).

Uma vez que se passa a considerar o princípio masculino superior, os valores masculinos ganharam força sobre os femininos, o que acabou por legitimar ideologicamente toda uma estrutura social na qual o homem é o detentor do poder material e espiritual. Isso gerou um desequilíbrio na alma humana, fazendo com que os valores femininos ficassem enfraquecidos dentro de cada ser.

A segunda frase copiada por Beethoven, segundo estudiosos (como Solomon, 1977), já é datada desse período egípcio mais patriarcal, e foi extraída de um hino que o sacerdote do templo declamava para o iniciado: Ele é só de si mesmo e é a essa solidão que todas as coisas devem ser.

Beethoven era um ardoroso devoto da figura do Deus-Pai e em diversas ocasiões expressou essa admiração. A mais eloqüente profissão de fé beethoveniana no Deus Pai está em sua Nona Sinfonia “Acima desse docel estrelado há de viver um Pai amoroso”. Já a busca do “sagrado feminino” provavelmente fosse algo inconsciente em Beethoven (busca essa que encontrará na personagem “Leonore-Fidélio” sua expressão mais eloqüente).

Como ocorre em maior ou menor grau com todo homem, Beethoven não estava imune ao legado de milênios de patriarcado, o que dificulta aos homens a consecução daquilo que esotericamente se chama “o matrimônio interior”: a junção das energias yin e yang da alma, da lua e do sol, da anima e do animus e, por conseqüência, do amor genuíno e igualitário entre o homem e a mulher.

Como artista, Beethoven tinha em sua sensibilidade um elemento que o tornava um pouco mais “feminino” do que os demais homens. Podemos especular que o profissão de compositor seja, por si mesma, um “artesanato do sagrado feminino”. Nesse sentido, compor música seria como um tentativa “re-compor” a natureza sinfônica da alma. Isso se torna claro quando analisamos ao origens míticas da música, a qual, como “arte das Musas”, trata-se de uma manifestação espiritual do feminino.

Porém, mesmo para um compositor fortemente ligado à tradição espiritual da música ocidental, que se inicia com os Meistersinger medievais e tem em Hildegard von Bingen seu modelo espiritual gerador, não seria nada fácil para Beethoven trilhar o caminho da “re-composição” de sua alma. Solomon, ao analisar as frases anotadas por Beethoven, embora não avance mais profundamente sobre o seu significado (“Não podemos saber o que é que significavam para ele. Parece terem uma significação religiosa; e talvez estejam de algum modo relacionadas com os sentimentos de isolamento do mundo que Beethoven albergava.”) foi feliz em supor que existiria ali revelado um conflito interno no compositor e que tal situação seria posta à prova no affair com a “Amada Imortal”.

Compreender a alquimia das duas frases anotadas por Beethoven pode ser considerada a base mítica e espiritual que sustenta o enredo de “A Gruta”. Tais frases foram anotadas por Beethoven possivelmente porque nelas ele intuiu a existência de um desafio espiritual, qual seja, a unificação dos princípios espirituais masculino e feminino, base da harmonia interna da alma.

Porém, há que se notar que isso se dá em Beethoven de forma não consciente (talvez como uma intuição de um caminho de auto-cura, de reencontro da plena capacidade de amar, retida pelos traumas e complexos familiares) e não como uma busca místico-esotérica consciente como ocorre em Mozart. Solomon talvez esteja certo de que esta também fosse uma maneira do compositor colocar o feminino em um pedestal tão alto de forma que não o fosse possível atingir, liberando-o de ter de confrontar seus medos e complexos mais profundos.

As figuras parentais de Beethoven transmitiram-lhe um modelo bastante duro de seus arquétipos fundamentais. A mãe costumava dizer que uma mulher “deveria ser morta ao nascer”, como forma de liberar-lhe de tantos infortúnios. Maria Magdalena era o modelo da esposa austera, sofredora e calada. O pai, o modelo do marido ébrio e imprestável, violento e incapaz de firmar sua dignidade masculina perante o lar. Tais elementos levariam o compositor a internalizar um desprezo inconsciente pela figura da esposa, que julgava fatalmente destinada à mediocridade e ao sofrimento.

Por outro lado, isso também explicaria que ele buscasse em um feminino transcendente um apoio contra seus sentimentos hostis face à “degradação inevitável” das mulheres pelo casamento. Temeroso ao casamento Beethoven, entretanto, normalmente se via freqüentemente intensamente movido pela paixão: “Beethoven está com muita freqüência enamorado, mas suas lealdades são quase sempre de muito breve duração”(Relato de Ries). O compositor parecia escolher suas “lealdades” de forma que fosse praticamente impossível uma união. Suas amadas ou não lhe devotavam atenção, ou eram casadas ou de uma classe superior.

Todos esses elementos internos estarão em jogo nas “cartas à Amada Imortal”. Solomon acredita que as “cartas” representem um momento de intensa dramaticidade para Beethoven, pois provavelmente se trata da única oportunidade em que uma mulher claramente teria dito “sim” ao compositor, apesar de tudo... Nelas vemos um homem em busca do amor, atormentado pela solidão, pela aparente impossibilidade amorosa e mirando para o espiritual e o divino que existe no amor como um consolo. As cartas foram escritas de forma um tanto confusa e apresentam um discurso que mescla e alterna desejo, angústia, esperança, fé, sublimação e resignação.

Podemos dizer que Beethoven deixou em suas cartas (bem como em suas músicas) um pungente desafio à regeneração espiritual masculina. Tarefa grandiosa que tentaria ser concluída por seu controverso seguidor e quase apóstolo Richard Wagner, o qual também a deixou inconclusa (Richard Wagner, após escrever ao longo de sua vida diversas óperas em torno da temática do feminino, morreria repentinamente de ataque cardíaco enquanto escrevia um artigo sobre o “sagrado feminino”).

“A Gruta” é uma tentativa de resgatar essa busca que permanece ainda hoje como um profundo desafio espiritual: a re-unificação interna de espírito e matéria, dos aspectos espirituais femininos da alma com os aspectos masculinos do poder, vontade, verdade, coragem e o desejo de criar (cujo uso desconectado do feminino redundou em abuso), do nosso componente biológico mortal e nosso espírito divino imortal.

“A Gruta” não fornece respostas para tal grandioso desafio, apenas reapresenta as peças do quebra-cabeças e re-expõe (como uma velha sonata-forma) o caminho. Porém indica que o prêmio para quem conseguir montá-lo dentro de si mesmo será o re-encontro com sua própria alma imortal e, suprema ventura, com a Grande Alma Universal, a venerável “Amada Imortal”, no útero cósmico da Deusa-mãe, arquétipo maior do feminino divino, a consorte inefável do Criador, senhora de toda a Sua Criação.

(Artigo de M. R. Menezes © 2007)



 
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