* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007
Em 1827, durante o levantamento do acervo de partituras, esboços e rascunhos
deixado por Beethoven, uma outra descoberta - um pequeno retrato gravado em marfim
encontrado na gaveta secreta da escrivaninha de trabalho do compositor - acabou
por receber pouca atenção. O retrato era de uma mulher desconhecida
no círculo de amigos do compositor e o assunto logo caiu no esquecimento.

Os direitos para uso desta imagem foram adquiridos por ProLíbera editora
Stephan von Breuning (1774-1827), amigo de Beethoven, adquiriu o retrato, que
ficou com os Breuning por bastante tempo, até ser passado adiante e chegar
finalmente às mãos do grande colecionador de arte, o médico
suíço Hans Conrad Bodmer (1891-1956).
O retrato havia sido superficialmente identificado, pelo estudioso beethoveniano
A. C. Kalischer, como sendo da condessa Anna Marie Erdödy (1779-1837),
amiga de Beethoven a partir de 1803.
O pesquisador Stefen Ley teve então a idéia de investigar melhor
o retrato da mulher desconhecida, então de posse do doutor Bodmer. Ley
o confrontou com um retrato autenticado da condessa Erdödy, de posse de
sua bisneta, em Viena. O pesquisador verificou então ser inteiramente
falsa essa identificação. Pesquisando nos arquivos de Viena, ele
confrontou a imagem da mulher misteriosa com a de todas as mulheres pertencentes
ao círculo conhecido de amizades do compositor. Ao final de sua investigação,
o pesquisador declarou:
"Este seguramente é o retrato de uma desconhecida.
A possibilidade ou, de fato, a probabilidade é de que tenhamos aqui um
retrato da Amada Imortal."(Ein bild von Beethovens unsterblicher Geliebten?
- Ley, Stephen. Atlantis, 1933.)
Anos mais tarde, em seu testamento, o colecionador H. C. Bodmer (foto) deixa
toda a sua coleção de objetos relativos a Beethoven (incluindo
o misterioso retrato) para a Beethoven-Haus, museu dedicado à memória
do compositor, erguido em sua casa natal, em Bonn, na Alemanha, no final do
século XIX. Em 2002, o retrato da mulher desconhecida recebeu uma cuidadosa
restauração, estando hoje na sala de número nove do museu,
junto com a coleção Bodmer, à disposição
de todos que o queiram conhecer, agora recomposto em suas cores originais.
Conclusão sobre o "Mistério do retrato":
O retrato
da mulher desconhecida nos mostra como pode ter havido uma outra mulher na vida
de Beethoven (apesar de sua vida pessoal ter sido vasculhada como a de poucos
personagens da história) por nós totalmente desconhecida. A Beethoven-Haus
já admite formalmente associar a estampada mulher desconhecida à
"Amada Imortal". Solomon admite (em seu "Beethoven" de 1977)
poder existir uma outra mulher que satisfizesse a todos os requisitos necessários
presentes nas "cartas", apenas não sendo esta por nós
conhecida. Porém, a presunção de que tal mulher desconhecida
por nós seja a destinatária das cartas não deve ser considerada
de forma automática. Tal dama pode ter sido uma "amada", mas
não ter sido a misteriosa destinatária das cartas. Ela pode também
ter sido uma simples amiga, aluna, admiradora ou, simplesmente, alguém
que o compositor conhecia e que lhe deu esse presente (embora dificilmente o
compositor guardaria em uma gaveta secreta de sua estante de trabalho diária
um retrato caso esse não significasse algo mais profundo). Solomon, ainda em seu "Beethoven" de 1977, cita o retrato em sua lista
de argumentos pró-Antonie. Entretanto, ele tenta "forçar
um pouco" ao pretender mostrar ser esse um retrato de Antonie. Basta uma
análise rápida para vermos como isso não é verdade.
Tanto que tal conjectura jamais voltou a ser considerada novamente. O que o misterioso retrato faz, sem margem de dúvida, é reavivar
e aprofundar o mistério em torno da amada imortal e da vida sentimental
e espiritual de Beethoven.
Em "A Gruta", o que se busca é ir além do meramente
biográfico e sentimental e buscar um sentido mais profundo para a vida
sentimental e espiritual do maior dos músicos. Para isso, a mulher desconhecida
surge na obra não como uma encarnação da misteriosa amada (pois a obra segue a tese Antonie Brentano nesse quesito),
mas como um veículo para investigarmos as profundezas da alma e do coração
de Beethoven e , por conseguinte, de todos nós.
* Texto escrito por M. R. Menezes © 2007
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