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Uma introdução à leitura de "A Gruta"

O compositor alemão Ludwig van Beethoven viveu entre 1770 e 1827. Considerado o compositor mais influente dos últimos séculos, foi uma das maiores personalidades artísticas da história humanidade. Suas obras constituem, até hoje, a base do repertório das salas de concerto de todo o mundo.

Homem de temperamento calado e vida solitária (muito em virtude da perda auditiva que o afetou muito cedo e o deixou totalmente surdo ao final da vida), soma-se a seu legado o mistério suscitado, após sua morte, pela descoberta de três cartas de amor endereçadas a uma mulher intitulada por ele apenas como “Minha Amada Imortal”. A curiosidade popular logo se agitou por conhecer a identidade da amada do compositor. Entretanto, não foram encontradas provas conclusivas capazes de elucidar em definitivo a questão.

A mais bem estrutura investigação a respeito da identidade da misteriosa amada foi feita pelo biógrafo norte-americano Maynard Solomon: Antonie Brentano (1780-1869) seria quem reuniria as maiores chances de ser a destinatária das cartas. Porém, outra revelação do inventário dos bens de Beethoven incorporaria nova dimensão ao mistério: a descoberta do retrato de uma mulher desconhecida na escrivaninha de trabalho de Beethoven, cuja identidade jamais se elucidou, dando margem à especulações de que ela poderia ser a verdadeira “Amada imortal”.

Esse é o breve sumário do mistério da “amada imortal” de Beethoven, assunto que foi abordado nos últimos séculos por dezenas de livros, estudos e até pelo cinema.

Porém, o que o maestro e compositor M. R. Menezes, pesquisador beethoveniano, decidiu fazer foi algo inédito: aprofundar o tema em busca de sua dimensão espiritual. Seu ponto de partida seria a seguinte indagação: o que seria, para Beethoven, uma “Amada Imortal”?

Uma análise cuidadosa das cartas de Beethoven revela aquilo que o maestro Menezes chamou de “misticismo amoroso”: uma crença em um amor sublime e transcendente. Afinal, para que haja uma “amada imortal” é necessário que exista uma alma imortal. Porém, as cartas expressam um profundo dilema da alma do compositor: poderá um amor imortal existir neste mundo?

“A Gruta - Memórias da Amada Imortal”, romance escrito por M. R. Menezes após vários anos de pesquisa, é uma ficção histórica que narra as memórias de Luise Lichtenberg, vienense nascida em 1765 e que seria, supostamente, a dama do “misterioso retrato”. Não foi o intuito do autor fazê-la se passar pela destinatária das cartas, pois o autor assume no romance a tese de Solomon, identificando Antonie Brentano como tal, mas sim, fazer dela um veículo para uma viagem em busca das bases espirituais que animavam a alma e a música de Beethoven.

O que é a música? A que ela se destina?

Não há como desvendar a alma de um músico sem desvendar sua arte. A música, desde a remota antiguidade, tem a função de nos levar para os domínios da alma e do espírito. Pitágoras foi o primeiro a provar que existe na música a manifestação das leis perfeitas da matemática universal. Porém, os antigos gregos sabiam que a música pode igualmente fazer mover o desejo e as paixões.

A primeira grande apóstola da arte musical, primeira a unir a tradição musical grega ao amor pregado pelo Cristo, seria Hildegard von Bingen (1098 - 1179), mística e beata que, além de tudo, foi compositora. Foi ela quem afirmou que a “A Alma é sinfônica” numa alusão ao termo pitagórico “sinfonia” que significa a reunião de todas os sons dentro de uma harmonia uma e fundamental.

Muitos compositores que se seguiram foram profundamente espiritualizados e consideravam que a música possuía uma força espiritual intrínseca, baseada em suas leis internas de harmonia, sendo capaz de levar os homens a um sentimento superior e elevado e de forma mais direta do que a própria religião e a filosofia.

A música de Beethoven é uma expressão clara desta crença. Beethoven manifestou, diversas vezes, sua crença na capacidade de sua música de nos ajudar a sermos livres e verdadeiramente capazes de amar, de forma a que pudéssemos nos reaproximar cada vez mais do Criador. Maior exemplo disso é sua “Ode à alegria” que encerra sua nona Sinfonia.

A viagem pela investigação do sentido espiritual da música de Beethoven levou o autor ao encontro de outro gênio musical, W. A. Mozart, de quem Beethoven fora profetizado como sendo “sucessor espiritual”. A música de Mozart forneceu ao maestro a chave para a compreensão espiritual da música de Beethoven e também para o enigma de sua “amada imortal”: a experiência espiritual do feminino.

De todas as artes a música é a mais feminina. Arte das musas, cuja função primeira, reza o mito, era manter viva a memória dos deuses do Olimpo. Música que, posteriormente, passaria a encantar aos mortais por acender neles as memórias de suas almas imortais.

No romance, Luise Lichtenberg, ao ouvir a ópera “A Flauta Mágica” de Mozart, redescobre como o feminino possui seu lugar, ao lado do masculino, no “templo do espírito”, sendo esta a base para uma união sólida e iluminada entre homem e mulher diante do Criador.

Luise decide, então, buscar esse amor. Para isso, ela precisaria encontrar o “seu” Tamino. Porém, para se colocar como Pamina ao lado de Tamino diante do altar sagrado de Deus, Luise precisará se confrontar com os valores negativos masculinos, tais como a ganância pelo poder, a ocultação da verdade, a sede de dominação e de conquista, bem como se libertar do lado sombrio do próprio feminino, cuja fraqueza está na ansiedade, na vaidade, na indiscrição e na paixão.

Será um longo caminho para Luise que, ansiosa e imatura, de pronto se apaixonará por Beethoven, projetando nele o seu sonho romântico, caindo nas garras da ilusão. Porém, mesmo errando, Luise será o fio condutor de uma emocionante jornada que nos levará a conhecer a “Gruta”, um local onde as forças sagradas do feminino permanecem intocadas e puras, espécie de porta mágica de reentrada das almas mortais no Jardim do Éden.

Após muitas provas e sacrifícios e de um longo exílio de si mesma Luise conseguirá, enfim, libertar-se da ilusão e encontrar seu verdadeiro amor, ao mesmo tempo que Beethoven, enfim, se unirá à sua querida “Amada Imortal” e completará sua obra sinfônica com a “décima sinfonia”.

Eis a jornada proposta em “A Gruta”. Porém, ela somente terá sentido se você, leitor ou leitora, assumir junto com Luise o desafio de libertar o seu feminino (sua alma) das garras do masculino adoecido que ainda domina a sociedade moderna e, assim, abrir as portas internas de sua “Gruta” interior, reencontrando o amor verdadeiro que reside em sua alma imortal e flui do coração grandioso de Deus.

Boa jornada!



 
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